Saturday, October 28, 2006

poema para Camila e Beto, e Odegar de contrabando





mútuo-socorro*


Nos começos, o menino

via um demônio no teto bege,

de pé direito altíssimo,

da casa do avô.

Jovem,

achava o seu demônio

- já caído do teto –

oculto em outras pessoas,

entre ofendido e emancipado,

só dado a ver-se em algum esgar,

no vão entre as sobrancelhas,

no modo de tocar um copo

ou a haste de um gladíolo.

Quando velho,

entre o leito e a pia,

convivia já tranqüilamente com seu demônio

e este, sóbrio, terno e gravata,

aquecia-lhe os pés

e entornava-lhe o chá

das esperanças desaprendidas.



(*) in Pés de Aragem, Marco de Menezes, 2006.

Wednesday, June 21, 2006

uma oração(*)


que, Deus, me tomes pelo antebraço na fronteira hora
e Tua horda de medusas e ciclopes e texugos

a minha casa aporte sem demora


que em silêncio amanuense este eu sôfrego Te aguarde

depois de ir-me da cama ao pátio, no sexto piso

depois de ir-me à flor do carpete amanhecido
depois de ir-me à feira, na outra esquina
guardar a tília nas mãos calosas dos meus irmãos


sem demora chega
com Tuas tropas de Unamunos
Teu cemitério de paliçadas

Tuas palavras do tamanho do mundo


e que a água, da qual eu vim, que me embebeu, que em mim lambeu

célula a célula, volte a Teus dentros, Deus


que ao ser tomado pelo antebraço,

macilento antebraço de Lázaro,

juro ser franco, e rude

e a Ti ignore uma vez mais,

antes da lua final neste jardim,

onde todos os meus brinquedos enterraste


(*) inédito, Marco de Menezes, in "Anel postiço em merengue", Caxias do Sul, 2006.

Tuesday, June 20, 2006

1

"os dentros" é uma parca resposta aos pátios, desse pobre escriba aqui.
já que lá ninguém mais posta, posto eu por cá.
se ninguém vai lá, aqui tampouco.
de modos que.